sexta-feira, 21 de julho de 2017

Quando é o suficiente? [TW: SUICÍDIO]

Fiquei em choque ontem com a notícia do suicídio de Chester, ex-vocalista do Linkin Park, o que me levou a trocentos pensamentos, não apenas ao suicídio nem as associações do rock com a alta taxa de mortes antes dos 75 anos, mas à decisão de dizer "ok, já deu pra mim". Inevitavelmente, me veio outros vocalistas que eu admirava que morreram cedo, em consequência tanto de suicídio quanto de overdose, o que, segundo alguns livros, também é uma forma de suicídio.

Nesse ano foi-se também Chris Cornell, ex-vocalista da ex-banda Audioslave, enforcado. Indo não muito longe, me vem o Chorão do Charlie Brown Jr., Champignon, do também Charlie Brown Jr., Amy Winehouse, todos por overdose de algum tipo de medicamento e, dentre muitos outros, tietagem à parte, Marilyn Monroe. 

Fiquei martelando algumas coisas. 

Não sei, mesmo, qual é a associação de dinheiro e fama com o índice de problemas emocionais. Não sei onde entra a depressão nesse meio cheio de grana e pessoas conhecidas, mas ignorar que provavelmente exista uma relação é pior do que tampar o sol com a peneira, então vamos ao lugar onde eu estou agora: quando foi que eles simplesmente pensaram "ok, já deu"? 

Deixando claro que não acho covardia o suicídio em si e, sim, uso de drogas ilícitas é uma forma de suicídio.

Porque a pessoa levanta, come, toma banho, ou sei lá o que, e se olha no espelho pensando "não quero mais isso para mim". Respira pela última vez, se olha no espelho pela última vez, escreve algo pela última vez. A ideia de "última vez" é apavorante para mim, aliás, mas será que eu conseguiria manter um relacionamento abusivo com a minha mente por décadas? Será que nós também não poderíamos chegar na mesma linha que todos esses, afinal? O que nos diferencia? A ideia de que ter dinheiro trás paz é trucidada quando vemos os números de ricos depressivos e dependentes de qualquer tipo de medicamento, então como podemos ter tanta certeza de que somos tão diferentes assim? Será que decidir encerrar esse ciclo sozinho não seria um sinal de coragem?

Não defendo suicídio, aliás. Defendo a ideia de que as pessoas cansam, seja do que for, e ninguém nunca me provou o contrário.

Não consigo imaginar a ideia de passar 10, 15, 20 anos tentando se manter objetivamente consciente e falhar; não consigo imaginar você se degradar aos poucos por não conseguir lidar com aquilo que a vida jogou no seu colo. Não sei simplesmente pensar que ele tinha tudo e escolheu tirar a única coisa que ele tinha total controle porque, sinceramente, o buraco é BEM mais embaixo. As coisas são um pouco além de "falta de fé" ou "falta de Deus". Porque, né, convenhamos, não temos domínio sobre o que acontece, mas, se formos emocionalmente preparados e mentalmente fortes, lidamos melhor com a situação que jogam sobre nós. Não quer dizer que não vamos falhar, só quer dizer que estaremos melhor preparados. Mas não é assim que a banda toca, e nem é de hoje.

Ninguém nos ensina que é normal sentir em excesso e que não somos um ET por isso nem que está tudo bem ter dias não tão produtivos quanto aqueles que você nem lembrou de ver as horas. Parar é necessário, se observar é necessário, assim como continuar tentando. Mas, sinceridades à parte, uma hora cansa. E não somos ninguém para julgar uma escolha que não foi nossa.

Nos apegamos a coisas que acreditamos que são maiores do que nós, mas não é nossa culpa. Fomos ensinados à isso, a ser assim. A fugir, a gritar, a fazer tudo rápido, com pressa. Frases curtas, explosões, tudo sempre em movimento, tudo sempre passando, tudo sempre em inconstância. Pena que a maioria não aprende com as pessoas que escolheram colocar o ponto final, porque, nesse momento, eu não quero, daqui 20 anos, ser encontrada jogada em um lugar qualquer, por ter abraçado a ideia de "ok, já deu". Existem caminhos e, quanto mais menosprezamos as pessoas que não conseguiram encontrar nenhum, mais ignoramos os que ainda estão buscando soluções. 

A ideia é sempre buscar soluções e sempre manter-se em equilíbrio, mas existem pessoas que conseguem e outras não. 

Vamos ter um pouco de empatia e compaixão pela luta alheia?


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domingo, 28 de maio de 2017

"Nunca somos, sempre estamos"

O queixo cai e os últimos anos passam na minha cara como se uma peça estivesse sendo pregada em mim, por mim mesma. Os choros, os pânicos, os excessos, as fugas, as coisas escondidas. Observo a voz de roupa mostarda enquanto me lembro dos remédios com hora marcada e a alimentação medida, sendo complementada por pós coloridos com gosto de chuchu.

- Então, independente do que está acontecendo agora, você não é. Você está.

Eu estou.

Respiro fundo, corrijo a postura, cruzo as pernas e sinto a leveza de me sentir um ser mutável, adaptável, moldável.

- Bom, vamos começar. Não esquece de não entrar no pensamento e apenar observar.

Observar a minha sala de aula que coloca fogo na cortina enquanto a galera do fundo joga truco. Certo.

- Apenas observe...

Respiro, me corrijo, me observo e lembro das coisas que eu simplesmente não quero mais. Sinto a ponta dos meus dedos, meu pulmão se expandindo, o ar entrando. Os pensamentos passam pela minha cabeça como um pronto socorro em época de virose, e eu sou aquela atendente que só faz ficha e observa o entra e sai de gente doente. O mais louco é que tudo aquilo sou eu. A assistente, as pessoas doentes, os médicos, o hospital; o que quebra todas as minhas teorias defendidas de que corpo e mente são uma coisa só porque, naquele momento, meu corpo e minha mente eram coisas bem distintas e com vidas separadas.

Eu não sou. Eu estou. E talvez eu não seja nada. Talvez eu não precise ficar me agarrando em títulos que jogaram em mim ou em ideias que eu não ajudei a criar.

Porque eu não sou. Eu estou. Mudanças, adaptações, formas, tensões, pavores, temores. Eu não sou nada disso, eu apenas estou.

Não sei como as pessoas se sentem melhores quando frisam a ideia de ser a mesma durante a vida toda, sabe. Não sei como que se reconhecer sempre do mesmo jeito se torna algo positivo quando a ideia de se adaptar a algo nos amadurece e nos faz querer ser mais do que aquilo que sempre sonhamos.

Eu só... Não sei.

Só que sei que não sou, literalmente. 

Só sei que estou.



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