sexta-feira, 30 de março de 2018

Um ano

Nos últimos dias me dei conta que já faz um ano que o Jorginho virou história fofa para contar. O que, talvez, justifique todo esse meu mal estar, todas essas minhas dores de cabeça, todo esse enjoo disfarçado de gastrite. Ou não, porque, em vários aspectos, nada mudou.

E não tô falando dele. Tô falando de mim. 

No dia que ele morreu, foi uma puta facada do meio da costela. Eu não respirava, eu não vivia, eu não conhecia a consciência de uma forma contínua, e nem adianta culpar a ansiedade, porque o mundo não caiu por causa dela, apesar de uma grande parte do meu corpo acreditar que o mundo caiu por minha causa. O mundo caiu porque uma hora ia cair mesmo, seremos realistas, mas que existe uma coisa enorme aqui dentro que me convence todos os dias que o mundo caiu por minha causa, existe. E como existe.

Mais de 350 dias depois... E nada mudou.

Ou melhor, eu não mudei.

Essa força enorme que sempre joga na minha cara a culpa de escolher a opção menos dolorosa para ele continua aqui, super firme e super forte, como se não existisse diálogo, como se não existisse justificativa, como se fosse absurdo, errado, imperdoável. Eu sempre me questiono se esse perdão é realmente algo fora de cogitação ou se só é fora de cogitação por ter sido comigo e, adivinha. 

Como eu disse, nada mudou.

Eu analiso meu ciclo de amigos, minhas atividades, meu estilo de vida e eu noto, sim, algum tipo de mudança, mas onde ela acrescenta quando o assunto retorna sobre a culpa? Porque, se toda essa minha guerra interna não anda servindo sequer para trazer paz, então qual o foco? Guerra gratuita? Culpa eterna? Será mesmo que um ano acreditando que eu deveria ter feito alguma coisa diferente não serviu para entender que não existe opção menos dolorida? Então, o que falta?

Acredito, de verdade, que eu sempre tenho algo a aprender e, enquanto eu não aprender, esse algo vai ficar voltando e se esfregando na minha cara. A ideia de que eu tenho que aprender algo com a culpa não me enlouquece mas também não me tranquiliza, porque eu não consigo imaginar o que eu preciso aprender. Aprender a não sentir mais culpa, talvez?

Um ano. Não sei quantos remédios - e tipos diferentes de remédios - eu tomei, perdi a conta das vezes que eu queria sair correndo e comprar um cigarro, não sei quantas opções de suicídio foram criadas. Não sei quantas vezes eu fui dormir achando que eu não acordaria mais, justamente por não saber como meu corpo iria reagir com todas as químicas que estavam dentro dele. Então, o que mudou mesmo?

Hoje eu sei o que são asanas, eu pratico alongamento diariamente, conheci pessoas e coisas que eu acredito que eu precisava conhecer, como o yoga. Trabalho a paciência comigo mesma e com os outros, evito roer unhas, entendo que a maioria dos sinais do meu corpo são mandados pelo meu emocional. Alguns rostos ainda são os mesmos, e sou grata a eles, enquanto outros eu fiz questão que desaparecessem, porque, né, se não somar na minha vida, não faz diferença se desaparecer, então, por favor, desapareça.

Não sei como vai ser daqui um ano, mas "sobreviver" não é algo que está nos planos, porque eu, sinceramente, mereço mais.

Obrigada, meu menininho.

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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Não, eu não vou morrer.

Estou sentada, com o notebook no colo, ouvindo um mantra budista. As vezes eu me pergunto se cada opção que eu escolho não tem feito com que eu me transforme em uma budista em andamento. Minhas mãos estão tremendo, as palmas suam, a boca saliva, o estômago revira. Durante todos esses meses de meditação e yoga, eu consegui perceber situações em que a parte física está bem, mas a cabeça diz que não. Situações em que eu sinto exatamente o que eu estou sentindo agora, mas com uma leve diferença: a distração funciona. Me focar em algo sem sentido e aleatório me ajuda a passar o tempo enquanto o remédio começa seu efeito. Eu mereço todos os parabéns possíveis por aceitar que o medo existe, por vê-lo como real - porque ele é real - e, principalmente, por observar o corpo e a forma que eu - não - lido com isso.

Não adianta. Eu não lido.

Eu descobri quando não é real, mas e quando é? 

A primeira coisa que vem na minha cabeça, e não sai mais, é que eu vou morrer. Sabe-se lá como. Não importa se eu estou sentada na cama, com uma roupa confortável, sem nenhum tipo de excesso. Aqui dentro eu vou morrer. Aqui dentro é como se eu tivesse vendo uma bala vindo em direção à minha cabeça, em câmera lenta, enquanto eu estou amarrada em uma cadeira. Então, seguindo essa lógica, eu vou morrer.

O lance é que eu não vou morrer.

(Eu vou, mas não agora.)

Eu não estou presa em uma cadeira, não está vindo uma bala na minha direção, não sou isca de nenhum tipo de animal gigante nem nada do gênero. Logo, eu estou segura. Meu corpo está seguro, meu eu está seguro. Apavorado, mas seguro. Por mais que a minha mente não veja isso agora, as coisas estão bem e a morte não é exatamente um risco. 

Não é um risco mesmo. 

Não sei como deixar claro que estamos bem, não sei como deixar claro que o medo em excesso não ajuda em nada. Não sei como esclarecer que a somatização faz tudo ser muito maior do que realmente é, sabe. Não estou com a corda no pescoço, não estamos perdidas, não iremos morrer agora.

Porque eu me adapto, levanto, sobrevivo. E é a melhor coisa que podemos fazer.


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